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Orçamento

O que é BDI e como calcular pela fórmula oficial do TCU

Por Luis Fernando Guimarães, CREA-SP · 5 de julho de 2026 · 7 min de leitura

BDI calculado no chute — "uns 25%, sempre foi assim" — é margem desperdiçada ou proposta perdida. Entenda o que cada componente representa, como calcular pelo método do TCU e por que o percentual varia entre obras do mesmo tipo.

O que é BDI?

BDI significa Benefícios e Despesas Indiretas. É o percentual que a construtora aplica sobre o custo direto da obra — mão de obra e materiais — para chegar ao preço de venda ao cliente.

Em termos simples: se o custo direto de uma alvenaria é R$ 100.000 e o BDI é 25%, o preço que você cobra do cliente é R$ 125.000. Os R$ 25.000 cobrem sua administração, seguros, riscos, despesas financeiras, lucro e os impostos que você paga sobre o faturamento.

O problema de definir o BDI por feeling é que cada componente tem um custo real — e se você não calculou, é quase certo que está cobrando menos do que deveria, ou cobrando certo mas distribuindo errado internamente.

A fórmula do TCU

O Tribunal de Contas da União (TCU) padronizou o cálculo de BDI para obras públicas e privadas com financiamento governamental. A fórmula virou referência do mercado porque expõe todos os componentes de forma transparente:

BDI = [(1 + AC + S+G + R + DF) × (1 + L) / (1 − I)] − 1
AC = Administração Central
S+G = Seguros e Garantias
R = Riscos
DF = Despesas Financeiras
L = Lucro
I = Impostos (PIS + COFINS + ISS)

Cada variável precisa ser preenchida com o valor real da sua empresa e da sua obra. Veja o que cada uma significa:

Os 6 componentes do BDI

Componente O que cobre Faixa TCU
AC — Adm. Central Rateio dos custos da sede: salários de gestão, aluguel, contabilidade, TI, infraestrutura que não vão à obra 3% a 5,5%
S+G — Seguros e Garantias Seguro de obra, seguro de responsabilidade civil, garantias contratuais exigidas pelo cliente 0,5% a 1%
R — Riscos Provisão para imprevistos não cobertos por seguro: clima, variação de prazo, litígios menores 0,97% a 1,2%
DF — Despesas Financeiras Custo do capital de giro: juros pagos por antecipar materiais antes de receber do cliente, taxas bancárias 0,5% a 1,3%
L — Lucro Margem de lucro líquida da empresa sobre o faturamento da obra 6% a 8,96%
I — Impostos PIS (0,65%), COFINS (3%), ISS (varia por município, geralmente 2% a 5%) 6,5% a 9,25%

Exemplo prático de cálculo

Vamos supor uma construtora no regime de lucro presumido, atuando em São Paulo (ISS 2%), com os seguintes parâmetros:

  • AC: 4,0% (empresa de médio porte)
  • S+G: 0,8%
  • R: 1,0%
  • DF: 0,8% (prazo médio de 30 dias entre pagamento e recebimento)
  • L: 8,0%
  • Impostos: PIS 0,65% + COFINS 3% + ISS 2% = 5,65%
BDI = [(1 + 0,04 + 0,008 + 0,01 + 0,008) × (1 + 0,08) / (1 − 0,0565)] − 1
Numerador: 1,066 × 1,08 = 1,15128
Denominador: 1 − 0,0565 = 0,9435
BDI = (1,15128 / 0,9435) − 1 = 0,2203 = 22,03%

Esse 22% é o percentual que vai sobre o custo direto. Se o custo direto de uma obra é R$ 1.500.000, o preço de venda seria R$ 1.830.450.

Por que o BDI varia entre obras do mesmo tipo?

O BDI não é um número fixo do setor — varia por empresa e por obra. Os principais fatores que fazem o BDI subir ou descer:

  • Porte da empresa: empresas maiores diluem o AC em mais obras, reduzindo o componente. Micro-construtoras com 1–2 obras ativas têm AC proporcionalmente maior.
  • Regime tributário: empresas no Simples Nacional têm alíquota de impostos diferente e às vezes menor. Isso muda o componente I significativamente.
  • Prazo de recebimento: se o cliente paga em 60 dias mas você paga seus fornecedores em 30, o DF aumenta. Se você consegue parcelamento de materiais alinhado ao cronograma de recebimento, o DF cai.
  • ISS municipal: o ISS varia de 2% a 5% dependendo do município. Uma obra em Ribeirão Preto pode ter BDI diferente de uma obra em São Paulo simplesmente por causa do ISS.
  • Tipo de obra: obras com maior risco técnico (fundações especiais, estruturas metálicas) justificam R mais alto. Obras com contrato de preço global tendem a ter R maior que obras por preço unitário.

BDI aceitável: as faixas do TCU

O TCU publicou faixas de referência baseadas em análise de obras licitadas. Para obras de construção civil, o BDI "normal" fica entre 18% e 30%:

  • Abaixo de 18%: suspeita de inexequibilidade — a proposta pode estar subfaturada e o executor vai quebrar no meio da obra.
  • Entre 18% e 30%: faixa aceitável para a maioria das obras civis.
  • Acima de 30%: o TCU tende a contestar em obras públicas. Em obras privadas, o cliente começa a buscar cotações mais competitivas.

Mas essas faixas são médias. Uma empresa pequena executando uma obra de alto risco em Simples Nacional pode ter BDI de 32% e estar correta. Uma grande construtora com muitas obras ativas pode operar com 16% com margem saudável. O número precisa refletir a realidade da sua empresa — não o que "todo mundo cobra".

O erro mais comum: incluir custos diretos no BDI

Um equívoco frequente é incluir no BDI itens que são custo direto da obra: salário do engenheiro residente, aluguel do container do canteiro, segurança do canteiro. Esses itens devem entrar no custo direto, não no BDI.

Quando você infla o BDI com custo direto, você distorce o orçamento de duas formas: o BDI fica alto demais (e você perde propostas ou parece pouco competitivo) e o custo direto fica baixo demais (e você perde o controle do que realmente custou executar a obra).

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